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A Eletrobras está pronta para investir no Brasil, podemos vencer a crise

Por: Imprensa06/04/20 19:45

Leia artigo de Ikaro Chaves Barreto de Sousa, engenheiro eletricista e diretor da Associação dos Engenheiros e Técnicos do Sistema Eletrobras (Aesel) publicado hoje (6) no jornal GGN

A Eletrobras está pronta para investir no Brasil, podemos vencer a crise

por Ikaro Chaves Barreto de Sousa

Nesse momento grave pelo qual passa a humanidade, e em especial o Brasil, há duas grandes preocupações. A primeira é quanto ao esforço de todos: cidadãos, empresas e governos no combate à pandemia da COVID-19, claramente a mais urgente, mas há uma segunda preocupação rondando todas as lideranças mundiais: dado os profundos impactos recessivos da pandemia em praticamente todos os países, como fazer para reativar a economia e evitar que as pessoas sofram ainda mais com a crise, com a recessão e o desemprego? Essa preocupação é ainda maior com relação à já combalida economia brasileira.

Com relação ao combate à pandemia confiamos em nossos cientistas e nos nossos profissionais da saúde e esperamos que as autoridades façam o que for preciso para preservar vidas, a despeito dos inevitáveis prejuízos econômicos. Já com relação ao enfrentamento da recessão, que se mostra inevitável, é preciso cuidar para que os setores mais vulneráveis da sociedade não fiquem completamente sem renda, mas é necessário também preparar o país para o dia seguinte dessa crise sanitária, que certamente superaremos.

Os números do PIB de 2019 mostram que além de um crescimento pífio, há um baixíssimo nível de investimento na economia brasileira, de menos de 15% do PIB no último trimestre de 2018, e sem investimentos não há crescimento sustentado. A realidade tratou de mostrar que de nada adiantou a reforma trabalhista, a PEC do teto de gastos, a reforma da previdência e outras mutilações dos direitos dos mais pobres. Nada disso serviu para mobilizar o investimento privado, nem interno e muito menos externo, afinal, o que leva a iniciativa privada investir é, como sempre foi, a perspectiva de demanda. Como esperar aumento de demanda de uma população cada vez mais empobrecida e com empregos cada vez mais precários?

O ministro da economia, Paulo Guedes, criou a estranha tese de que a economia seria como um avião com duas turbinas, uma representaria o setor público e a outra o setor privado. Segundo essa original teoria, seria preciso desligar a turbina do setor público para que a outra pudesse acelerar e manter o avião, ou melhor, a economia voando. A realidade, essa destruidora de ilusões, mostrou que o setor privado não se comoveu com o esforço fiscal do país e que o avião está prestes a se espatifar no chão.

Leia também: Brasil, França e Canadá reclamam de compra de EPI desviada para EUA
No mundo todo, diante da gravíssima realidade que se impõe, formou-se rapidamente um consenso de que somente com investimento público será possível alguma recuperação econômica. Na Europa já se discute a reestatização de empresas e, no Brasil, o próprio presidente da Câmara dos Deputados, o liberal Rodrigo Maia do DEM/RJ deu a seguinte declaração: “O setor privado sozinho não vai resolver os problemas. Então acho que a grande mensagem do PIB que saiu hoje é exatamente que a participação do Estado também será sempre importante para que o Brasil possa crescer e se desenvolver”.

Diante disso a Eletrobras tem um papel importantíssimo a cumprir. A maior empresa de energia elétrica da América Latina sempre correspondeu aos desafios colocados. Nasceu nos anos de 1960 com a missão de construir um sistema elétrico para o Brasil; nos anos de 1970, diante do choque do petróleo e da necessidade de prover energia para um país que crescia fortemente, foi responsável pela construção de algumas das maiores hidrelétricas do mundo; nos anos de 1980 foi usada até para conter a inflação e nos anos 2000, após a traumática experiência do apagão, foi responsável por recuperar os investimentos no setor elétrico, garantir a segurança energética e por praticamente universalizar o acesso à energia elétrica no país.

A Eletrobras está hoje, do ponto de vista da sua saúde financeira, num dos melhores momentos de sua história. Após passar por um período de extrema dificuldade causadas pela confluência de três fatores bastante desfavoráveis, que foram: a MP 579 em 2012, a severa crise hídrica de 2014 a 2016 e os crescentes prejuízos causados pelas distribuidoras do Norte e Nordeste que faziam parte da companhia, a Eletrobras conseguiu se recuperar. A remuneração das usinas no sistema de cotas foi readequada, a repactuação do risco hidrológico deu mais segurança para a empresa enfrentar crises hídricas e a privatização das distribuidoras, embora esteja trazendo enormes transtornos para aquelas populações, do ponto de vista econômico foi bastante benéfica para a Companhia.

Em 2018 a Eletrobras já havia apresentado lucro recorde de R$ 13,3 bilhões (lucro esse impactado por receitas não recorrentes, é verdade) e em 2019 a empresa apresentou um lucro de R$ 10,7 bilhões, lucro esse advindo basicamente das atividades operacionais da empresa. Além disso há que se destacar que a relação entre a dívida líquida e o EBITDA (lucro antes de juros, impostos e dividendos) é de incrível 1,6 vezes, ou seja, a empresa está muito menos alavancada que as suas principais concorrentes privadas. É bom ressaltar que esses resultados bastante positivos foram conquistados vendendo grande parte da energia no sistema de cotas, com preço muito abaixo do mercado e em um ambiente de estagnação econômica no país.

Entre 2003 e 2014 a Eletrobras foi chamada a participar fortemente da expansão do setor elétrico brasileiro. Nesse período a empresa teve participação decisiva na construção de grandes usinas hidrelétricas como Belo Monte, Jirau, Santo Antônio, Teles Pires e Sinop, teve participação decisiva também na expansão da malha de transmissão do país, como nos casos da interligação de Manaus, Porto Velho e Rio Branco ao Sistema Interligado Nacional, além de outras. A Eletrobras, sempre através de suas subsidiárias, teve também participação importante na acelerada expansão das usinas eólicas no Brasil.

A Eletrobras tem experiência, tradição, capacidade técnica e, a julgar pelo balanço recém divulgado, capacidade financeira para fazer os investimentos de que o país precisa, não só para transmitir e gerar energia elétrica, mas para dinamizar a economia, reativar cadeias produtivas e gerar milhares de novos empregos. É assim que os países saem de crises recessivas. Foi com iniciativa estatal que nos anos de 1930 que os EUA construíram algumas de suas maiores usinas hidrelétricas num esforço governamental gigantesco não só para eletrificar o país, mas também para reaquecer a economia após a crise de 1929.

Lamentavelmente nos últimos anos a Eletrobras praticamente parou de realizar novos investimentos. Uma empresa com um nível tão baixo de endividamento e com dinheiro em caixa (mais de R$ 10,8 bilhões) tem quase que obrigação de realizar novos investimentos, seja para remunerar melhor o capital dos acionistas, seja para não perder participação de mercado. No caso da Eletrobras, por ser uma empresa estatal, há também a necessidade de contribuir para a segurança energética do país e para a modicidade tarifária.

A decisão da atual diretoria da Eletrobras de não investir está alinhada tanto com o governo Temer quanto com o governo Bolsonaro no objetivo de privatizar a companhia. É uma decisão política e não técnica e visa justamente desvalorizar a empresa, mostrar à sociedade a Eletrobras como uma empresa irrelevante e incapaz de investir no setor.

Felizmente a Eletrobras não foi privatizada ainda. Se hoje a maior empresa do setor elétrico do país estivesse nas mãos de investidores privados, ela seria apenas mais uma empresa, como outra qualquer, cujo único objetivo seria o retorno a seus acionistas. Uma Eletrobras privada jamais investiria num momento como esse, jamais se exporia a riscos de realizar investimentos em um país onde é praticamente impossível fazer qualquer previsão para o fim do ano. A Eletrobras pode e deve cumprir com seu papel de investir no estratégico setor elétrico do país e contribuir para a segurança energética, a modicidade tarifária e também, juntamente com outras empresas estatais, para a reativação da economia brasileira.

Só a título de exemplo. A Eletrobras possui 47 usinas hidrelétricas cujos reservatórios possuem uma superfície de dezenas de milhares de quilômetros quadrados de lâmina d´água. Apenas cinco dessas hidrelétricas, Sobradinho no Nordeste, Furnas no Sudeste, Serra da Mesa no Centro Oeste, Tucuruí e Balbina no Norte, possuem quase 11 mil quilômetros quadrados de superfície. Se apenas 10% dessa área fosse coberta por painéis solares fotovoltaicos flutuantes, seria possível acrescentar ao Sistema Interligado Nacional (SIN) mais de 2.2OO MW de potência instalada. Um investimento relativamente rápido, com baixíssimo impacto ambiental, capaz de reduzir o uso de termelétricas caras e poluentes e que ainda por cima geraria milhares de empregos, num momento onde isso é mais do que nunca, essencial.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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